Sobre Trogloditas e Lobisomens

Sobre trogloditas e lobisomens

Há feras dentro de nós. Lobos e macacos. Disputam o cerne de cada humano desde o dia em que a humanidade nasceu. Divididos evolucionariamente entre sermos primatas coletores fortemente hierarquizados e caçadores ativos e coletivamente orientados, escapamos da trilha da seleção antes de termos uma resposta fácil sobre quem somos. Inventamos a agricultura, e pior, inventamos o pastoreio, industrializando a prátic11356210_1013484642009418_547958845_na de matar.
Com o pastoreio, inventamos também um campo de testes de “como dominar”. Reduzimos parte da humanidade a presas, e os lobos a escravos, implantando o sistema injusto onde o homem é o lobo do homem. Sociedades de pastores resultaram em sociedades de guerra, submetendo agricultores, pescadores ou caçadores.
Este é um assunto complicado, mas praticamente toda característica da forma de pensar da humanidade primitiva se baseou basicamente na ambivalência entre o modo de ser dos grandes antropoides, onde a sociedade tem um grande pai alfa mandão e um complexo sistema de “castas” determina quem manda em quem; e o modo de ser de um caçador de grupo, cujo melhor exemplo é o lobo, onde cada membro da alcateia é importante na hora da caça e não pode ser menosprezado na hora de dividir a caça, pois um caçador faminto será um elo fraco do bando na caçada seguinte.
Nossos instintos de animal social são díspares. Abarcam modos de socializar em extremos muito afastados entre o lobo e o macaco. E vez por outra, temos a consciência de que há uma coisa em comum entre ambos:
Lobos e macacos possuem seus párias.
Mas os homens, estes costumam deixar os párias se acomodarem. Inclusive vota neles.
Neste lobisomem que somos todos, agregando caracteres de carnívoro e de primata, experimentamos uma solidão interna dos perdidos, e descobrimos valores que definem os lobos que desejamos ao nosso lado e os macacos que queremos para fazer a catação mútua de piolhos. Às vezes, são ambos num mesmo indivíduo. Às vezes, e não há diferença de importância, quem temos ao nosso lado é só uma dessas coisas. E é igualmente importante.
O que não suportamos é o lobo que não participa da caçada e espera pelos nacos de carne do grupo, o macaco que só pede para tirarmos seus piolhos incômodos e não tira de ninguém. Mas nossa cultura de ovelhas os acata. Você conhece o tipo. Ele está do seu lado quando você dorme, debaixo do seu travesseiro, e se você bobear, ele saltará para dentro de sua mente e o dominará. E sequer será percebido, pois sua vida é tão leve que te faz flutuar sobre os outros.11414993_1013484708676078_207010748_o
Ele espera do lado, ou dentro, de cada um. O egoísta.
Aqueles de nós interessados em não serem submissos ao reles sobreviver veem claramente este fenômeno. Veem em si e veem em outrem. Mesmo nos mais amados, nos que desejamos mais próximos, aparece aquele que só pede e nada faz, como um espelho, que só recebe as nossas cores e imagens, mas não oferece calor. Já amou alguém que não correspondeu, mas exigiu de você muito? Pois é. Os poucos que resistem à “ovelhização” da sociedade e a questiona veem claramente os egoístas.
A vida é mais que instinto. Acima do lobo, acima do homem das cavernas, acima do alienado da civilização, nossas asas se abrem e nos permitem ver onde podemos pousar e de onde devemos voar para longe. Acima do macaco e da contradição, temos arte. Acima de lobisomens atormentados por suas vontades que feririam a liberdade dos outros, somos águias.

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Biólogo, ator, arqueiro, escritor em treinamento e especialista em comportamento animal, ecologia e saúde pública. Estudioso de mitologia comparada, história, culturas tradicionais e antropologia. Busca desenvolver novas ideias e abordagens destes assuntos e suas relações com o viver, e alcançar um entendimento do sagrado masculino.

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