George Lucas, Vai Com a Força.

George Lucas, Vai Com a Força.

Temos em frente uma nova etapa da saga que todos aprenderam a amar nos últimos trinta anos: Guerra nas estrelas. E sim, eu chamo de Guerra nas Estrelas e não “Star Wars” por que vi pela primeira vez quando a Lucasfilm ainda não havia resolvido colocar em prática a uniformização do planeta. Quando ela ainda estava do lado da Força.

Este é um espaço para falar de espiritualidade. e como é de conhecimento geral que a história de Luke Skywalker foi criada tendo o grande mitologista Joseph Campbell como consultor da saga do herói, acredito que é cabível falarmos disso e discutamos o papel do herói cinematográfico que nos inspirou.SW (3)

No fim dos anos 1970, George Lucas era um dos grandes de uma safra que nos deu Spielberg, Coppola, de Palma e Scorcese. Uma geração que apontava na cara de seus pais e dizia: “Vocês fizeram tudo errado!”. E fizeram mesmo. Eram os filhos da geração hippie, com ideais, horror à guerra, à repressão e ao autoritarismo. A trilogia original de Lucas reflete tudo isso, com overdose de ação, lasers e adrenalina.

Perfeito, mas algo deu errado. Uma coisa que se escuta muito hoje é de que Luke é “chatinho”, legal mesmo é o Darth Vader. Lucas caiu na besteira de ver a fascinação que seu vilão criava e cometeu aquilo que é chamada de “trilogia inicial”, uma prequela sofrível dos fatos vividos por Luke, Han e Leia. E focou justamente na formação da personalidade de Anakin Skywalker.

Mas então, ele havia caído na vala que arrastou muitos então quarentões e cinqüentões da virada do milênio: a culpa por ter atirado pedras nos pais. Fazendo a maior asneira cinematográfica possível, ele legitima o pai vilão de antes, explica-o, e tira a força do verdadeiro herói da saga, Luke. Essa vala de “pô pai, peguei pesado, desculpaí” criou uma geração de imbecis que se envergonhavam de ter sido rebeldes, de ter sonhado com justiça, e teve filhos criados sem norte nem sul, nem rebeldes, nem reprimidos. Uma geração de fracos.

A mesma geração que agora idolatra Vader junto a seus pais que começaram a ver que as besteiras da vida adulta, infinitamente piores que as besteiras de jovens, poderiam ser justificadas.

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E é aí que quero chegar. É fácil gostar do Vader. Ele é imponente, poderoso, mas não tem a menor responsabilidade pelos seus atos. Ele é um macho beta, um pau mandado do poder de fato: o Imperador. Mas ninguém quer ser o imperador, não é? Nããão, ele é feio e mau, Vader é só um injustiçado, cegado pelo sofrimento, uma vítima da sociedade, levado ao crime. Parece familiar?

Viram só? Darth Vader é um espelho desta geração que fica se justificando. É fácil achar Luke chatinho também, mas não é fácil SER Luke Skywalker: Ele enfrenta poderes muito maiores do que ele mesmo, desafia o pai (oh, que horror), quer liberdade para todos, mesmo que ao próprio sacrifício. Luke é um herói, lutando contra um homem-engrenagem parte de um império fascista. Ele é aquilo que devemos almejar. E ser assim não é fácil. A geração que cresceu com Guerra nas Estrelas falhou em entender a mensagem, e quando a corda tencionou na vida adulta, viraram apenas outros tijolinhos no muro.

Darth Vader só aparenta ser imponente. Ele é aquele imbecil no escritório dando carimbos em obras superfaturadas, dizendo que aquilo não tem nada a ver com ele, que precisa sobreviver. Que sofreu muito e só quer a grana do patrão corrupto. Darth Vader só parece poderoso por que tem um bando de capangas laser por trás dele, e abaixa a cabeça como uma ovelhinha quando recebe ordens.

Ah, mas ele tem sua redenção, não é? De novo: é fácil reagir quando a água bate na bunda. Quero ver ficar sempre fiel a seus princípios, desejar o tempo todo a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Isso, ele foi incapaz de fazer. Quem o puxa para fora é Luke, que jamais se entregou. O chatinho. Aquele que jamais foi fraco, ainda que as dúvidas estivessem sempre ali. Que jamais cedeu.

 

Agora, a Lucasfilm foi vendida para a Disney, cujo primeiro ato foi jogar fora os esboços de roteiro de George Lucas e resolveu começar do zero a trilogia final de Guerra nas Estrelas. Palmas para eles. Talvez fossemos cair nos dramas da velhice de Lucas, e teríamos que agüentar uma ladainha pelo bom e redimido Vader. Alguns boatos dizem que o novo filme mostrará Luke caído no lado negro da Força. E se for isso, é um ótimo sinal de que a saga vai pegar a geração de seu criador e dizer que ELA FEZ TUDO ERRADO. E fez mesmo. Se for para admirar o macho-beta do império, só se quisermos ser machos-ômega. Eu? Eu sou fã do Solo. Que começa atirando a sangue frio em um capanga qualquer e termina virando herói acima de tudo. E com a princesa.

SW (2)

Biólogo, ator, arqueiro, escritor em treinamento e especialista em comportamento animal, ecologia e saúde pública. Estudioso de mitologia comparada, história, culturas tradicionais e antropologia. Busca desenvolver novas ideias e abordagens destes assuntos e suas relações com o viver, e alcançar um entendimento do sagrado masculino.

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